A marca · do gb ao g·b

Desenhei em código. Decidi com gente.

Esta é a história do símbolo no topo desta página: de onde veio, o problema que apareceu no caminho e o teste que decidiu a forma final.

g·b, símbolo de Gabriel Brina
Em movimento, as letras se fundem e giram 180° em torno do pingo.

De onde veio

Comecei com pranchas geradas por IA, a partir de um livro de que gosto muito: o Logo Modernism, de Jens Müller, uma coleção de marcas modernistas. Serviram de ponto de partida, não de resposta.

Dali em diante, nada foi desenhado à mão. Cada símbolo é um script em Python que gera SVG. Mudar uma medida é mudar um número e rodar de novo.

Foram dez rodadas. Em algumas, cada conceito saía do princípio de uma referência: os programas de Karl Gerstner, as linhas que se espalham do México 68 de Lance Wyman, o humor de Paul Rand, a diagonal de Anton Stankowski, a grade que vibra nos Metaesquemas de Hélio Oiticica. Eu levava a regra, não a forma.

Prancha com dez monogramas geométricos em preto, gerados por IA, cada um com o nome Gabriel Brina embaixo.
Uma das pranchas iniciais, gerada por IA. O ponto de partida.

A forma

Na segunda rodada apareceu o desenho que ficou: um g e um b minúsculos que dividem a mesma haste. Girado 180°, o g vira b. É uma forma só, lida dos dois lados.

Gostei porque ela é uma regra, não um enfeite. Dela saíram uma família inteira (moeda, desenho técnico, circuito, padrões) e um mosaico em que cada célula é o mesmo gb em outro material.

O gb rotacional duas vezes: à esquerda na posição normal, com o g em bordô e o b em azul; à direita girado 180°, e agora a parte bordô ocupa o lugar do b.
O gb rotacional. Girado 180° em torno do centro, o g (bordô) passa a ser o b.
Mosaico de dezesseis quadrados, cada um com o mesmo gb em outra pele: bordô, açafrão, moeda laranja, planta azul, pixels verdes, pauta musical, listras.
Rodada 06: o mesmo gb em dezesseis materiais.

O problema

Mostrei para um amigo. Ele olhou e viu outra coisa: duas formas redondas coladas na base de uma haste comprida. Uma leitura anatômica que ninguém queria e que, depois de vista, não dá para desver. Ele tinha razão.

Minha primeira reação foi a de engenheiro: corrigir. Afastei as letras, desalinhei os bojos, encurtei a haste, inclinei tudo. Fiz 22 rascunhos e dei a cada um uma nota de risco.

Só que a nota era minha. Eu já sabia o que estava procurando, e isso fazia do meu olho o pior instrumento para medir.

Oito rascunhos do gb lado a lado: o original e variações com letras afastadas, bojos desalinhados, haste curta e sem ganchos, cada um com uma nota de risco.
Rodada 08: tentativas de corrigir o gb. A nota de risco era a minha opinião, não um teste.

O teste e a regra

Então parei de desenhar e montei um teste de leitura. Três cartões neutros, sem nome e na mesma escala: o g·b (letras separadas, com um ponto no meio), o gb fundido original e a Moeda, que é o gb dentro de um disco.

Cartão 1: g e b separados, com um ponto laranja entre eles.
1 · g·b
Cartão 2: o gb fundido original, as duas letras na mesma haste.
2 · gb fundido
Cartão 3: o gb fundido dentro de um disco laranja.
3 · Moeda
Os três cartões, como foram enviados: sem nome, sem contexto.

Mandei para cerca de doze pessoas, uma imagem por vez e em ordens diferentes. Para cada imagem, duas perguntas: o que você vê? E, se fosse para ler letras, quais? Ninguém ouviu falar da crítica. No fim, uma prancha com as três opções de marca e uma última pergunta: qual parece mais comigo?

Antes de ver qualquer resposta, escrevi a regra de decisão:

Regra de decisão · escrita antes das respostas

  1. Se duas ou mais pessoas citarem algo anatômico sem sugestão, a forma sai como símbolo parado.
  2. Se menos de dois terços lerem g e b, a forma perde pontos.
  3. Entre as que sobrarem, vence a mais escolhida na pergunta final.
  4. Em caso de empate, vence a que funciona melhor como favicon a 16 px.
  5. Depois da decisão, nada de nova exploração. Só acabamento.

A decisão

~12
pessoas, uma imagem por vez
2
leituras anatômicas do gb fundido
0
leituras anatômicas do g·b

O gb fundido teve duas leituras anatômicas espontâneas. Pela regra, saiu como símbolo parado. E a leitura mais comum dele nem era essa: era “óculos”.

O g·b não teve nenhuma. Foi o que mais se leu como letras e o mais escolhido na pergunta final. Ganhou.

O ponto do meio não é enfeite. É o pingo dos i de gabriel e brina, que no nome escrito também ganham essa cor. E é o centro de rotação: girado 180° em torno dele, o g continua virando b.

gabriel brina
O nome escrito, com os dois pingos dos i na cor do pingo do símbolo.

Os limites são reais. Doze pessoas é pouco, e eram todas conhecidas minhas. Um teste assim não mede preferência de público. Serve para achar problemas que eu, sozinho, não veria.

E houve um erro no desenho do teste. Os cartões eram numerados 1, 2 e 3, e a prancha final também. Algumas pessoas responderam pela ordem em que tinham recebido as imagens, não pelo número da prancha, e a primeira leitura dos votos saiu errada por isso. No próximo, nenhum número se repete entre etapas.

Depois da decisão, só acabamento. Testei quatro distâncias entre as letras e fiquei com a terceira. Em fundo claro, o pingo passou de açafrão para ocre, porque o açafrão quase sumia no creme.

Quadro comparando quatro distâncias entre o g e o b, em fundo claro, escuro e creme, e ao lado do nome.
Rodada 10: quatro distâncias entre as letras. Ficou a terceira, “pertinho”.

O que fica em movimento

O gb fundido não foi para o lixo. Ele continua vivo, só que em movimento. Na animação do topo, as letras se aproximam, se fundem no desenho original, giram 180° em torno do pingo e se separam de novo.

Parado, ele lia errado. Passando rápido, é só o g virando b.

Sequência de cinco quadros: g·b separado, as letras fundidas, o gb girando 90°, o gb girado 180° e o g·b separado de novo, agora com a parte bordô no lugar do b.
A sequência: separa, funde, gira 180° em torno do pingo, separa. O g (bordô) termina como b.

O que eu aprendi

A parte difícil não foi desenhar. Foi parar. Com um gerador em código, sempre dá para fazer mais uma rodada, e mais uma rodada parece trabalho.

Mas a pergunta “isso lê errado?” não se responde desenhando. A resposta vem de perguntar para gente, com a regra escrita antes, para não mudar o critério depois de ver o resultado.

É o que tento fazer no trabalho também: uma hipótese, um teste pequeno, uma decisão. Aqui, coube em uma dúzia de conversas.